Minhas unhas estão imensas, as tesouras, em alguma caixa a estante longe. Ando um monstro imenso e listrado soltando farpas e fogo, cacos de vidro e água salgada em todos os cantos, os cabelos cheios de pipoca, sal e areia, sujam todos os dias os lençóis, quartos e quintos, perdem-se linhas e linhas compriiiidas de anotações rápidas, preguiçosas, miçangas e sementes se soltam no meio de conversas sérias e desenhos cuidadosos para que não se faça nada. Ontem peguei um atalho e vim parar do lado da tua casa, com mochila alheia, telefone alheio, eu mesmo alheia, sonhando com uma casa, as meninas voam, flutuam pela janela e tu, até dormindo, preocupa-se com a arte do registro. São o mesmo. Me contaram que entraram na casa delas e levaram tudo, tu me diz que farão o mesmo conosco, somos bestas e brancos. Eu cansei de ter que ouvir reclamações dos outros. Vi ontem um maravilhoso livro de auto-ajuda que dizia: "Experimente o exercício de reclamar menos e não falar mal dos outros por 21 dias" e realmente só ler essa frase já foi de grande auto ajuda. Agora talvez a gente precise de ajuda alheia. Pronto, exercício por água abaixo.
Sei que não tem medo e que quase não te aflige o que se passa aqui. Sei também que isso tudo durará muito, muito pouco e que logo virão medos tão grandes como nunca mais os terá de novo. Por enquanto, é só isso que sei.
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