terça-feira, 1 de setembro de 2009
para cerla
Um dia cheguei em casa e meus filhos tinham ido à bicicletada, deixando tudo bagunçado na sala, cola, tesoura, pegaram algumas réguas para sustentar cartazes, papel cortado e aquela zona, sabe? Mas fiquei feliz e orgulhosa por terem conseguido finalmente fazer uma coisa sem me pedirem permissão ou sem que eu tivesse que ajudá-los, afinal eles já estavam aprendendo a falar, mesmo que com certa dificuldade, eu mesma até hoje entendo muito pouco. Quando chegaram, vermelhos de sol, estavam felizes e saltitantes e me trouxeram um presente: uma bola de mais de um metro de diâmetro feita de uma espécie de fita de fibra natural que não passava na porta, por sinal, e me disseram que tinha sido usada para um não sei o quê, não entendi, não me preocupei muito e agradeci o presente de grego como agradecemos cheios de carinho aos desenhos horripilantes que nossos filhos fazem da gente com o braço nas costas, o olho na testa, o cabelo verde, essas coisas. Como achar ruim, né? Não dá, gente, é uma graça. Bom, ganhei a bola em setembro de 2007 e até agosto de 2009 ela ficou debaixo da escada junto com a cadeira do Waílton, o guardinha da rua, e outras coisinhas que acabam se acumulando por lá, no chão: baratas mortas, panfletos com liquidações de supermercados, penas de pássaros, folhas secas, bitucas de cigarro. Mas não é fácil, gente, temos que estabelecer prioridades: a minha era ficar com a barriga no fogão e gritar tá pronto mais alto que o Ricardo consegue gritar mal passada ou bem passada oito vezes toda vez que tem carne naquela casa. Gente, tudo bem, eu não ligo, a pessoa não precisa ser vegetariana e politicamente correta, mas também preciso poder gritar essas coisas aqui na minha casa se não eles vão pensar que eu não cozinho pras crianças, o que não é verdade. Hoje fizemos tapiocas infladas, uma inovação digna da cozinha conceitual contemporânea: parece uma coisa, é outra e, ainda, tem gosto de uma terceira completamente diferente. Meu marido às vezes me cansa porque não ajuda em nada, sabe? E fica pra lá e pra cá com essas coisas eletrônicas e na semana passada mesmo quase explodiu um multímetro na tomada em que ligamos o forno e agora a tomada não entra direito porque o metal derretido ficou lá dentro. Acho certo a pessoa ter um hobby, mas gente, muito ajuda quem não atrapalha, né? E Deus não mata, mas castiga, eu bem que disse pra ele: você não entende nada dessas coisas e ainda vai explodir a casa. Dito e feito: não explodiu a casa, mas foi quase. E ainda veio me dizer que acha que foi meu olho gordo. Gente, vocês acreditam? É uma loucura, aqui em casa. Mas voltando à bola, depois de dar aquela faxina geral aqui em casa, resolvi fazer alguma coisa com ela e como não passa na porta e não posso jogar fora um presente das crianças, pendurei na escada. Venham aqui dar uma olhadinha quando tiverem um tempinho, faço um café, umas torradas.
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4 comentários:
hahahahahaaha,demais !
"É de goiaba, parece caju, mas tem gosto de tamarindo" , como dizia o filósofo Chaves.
Quero só ver esse café e essas torradas heim..
Tão aqui, é só vir!
vamos fazer uma pelada(ou baba como diriam os amigos baianos) com essa bola gigante!
Ei Mi
que lindo! não sabia de mais este seu saber!
que belos escritos, gostosos de ler...
parabéns
você pediu imagens?
coloca uma da bicicletada...
bjs
Lulu
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