sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

pisadera

Tem dia que tem tanto e em outros, nada. Nadei um milhão de quilômetros naquela água que circundava e aquadradava a casa toda, todas as casas, tentando sair pela janela, tentando sair por onde dava, só que era na horizontal, fica tão mais difícil se ver pra onde vai daquele jeito que voava. Acordei mil vezes gritando e cada vez era outro sonho pra ver só se me ouvia o peito apertado pela pisadera e vinha me salvar, mas não, enquanto isso continuava deixando os pelos da orelha crescer indefinidamente e te disse, mil vezes, eu te falei, pára de passar gilete, seu puto, que essa porra vai ficar imensa e um dia vamos nos perder aí dentro e assim foi, não sei que cara fez, não sei o que pensou disso tudo e continuei dormindo sem acordar, dormimos, você, pisadeira e eu juntas novamente, não tive um intervalinho acordada que fosse pra ela poder ir embora, passou lá a noite, talvez sentada na cadeira azul, desistida de tantas reacordadas e dormidas, acabou me deixando respirar. E tu, deixa? E eu, te deixo? Jamais. Deve ter ficado ali olhando para a foto de dona Walkiria e seu Zé que nem eu sempre faço, apaixonada ou olhando a penteadeira psicodélica, teu gemido de sono com pose de morto, tuas frases perdidas e minha exaflição.

teu avô morreu ontem

anda palhacinha
treme o quê quando começa a ver
umas semi-verdades se delineando?
ando desentendendo tanta coisa
porque não pára de mudar
quando é
que deixou de ser

aquela coisinha solta
perdida no mundo
que eu adorava tanto?

agora não me diz mais as frases
que vou jogar pra cima
pedaços de papéis picados e gritos
sorteio de cartas
escarafunchadas

agora quem abre o urso
com música na barriga
sou eu

agora fico aflita e não ligo
por mais que doa a quem doer
e seja eu
tudo revirando
estômago, eu, tuas coisas

e agora compra aspirinas, compra
e toma depois do almoço
como se fosse sobremesa

e tem mania de beber naqueles copos
quando não há o que comemorar
especialmente quando há mesmo
muito mais era pra ficar quieta

como dia de luto
abaixa o som que tu não sabe
mas teu avô morreu
sigo eu pensando vingada
como um dia pensou Calita
só que triste como vai ficar tu
ela acha

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

5 cervejas

Não tenho muito a oferecer. Se decido pedir quatro cervejas meus amigos se assustam. Os ritmos dos trabalhos dos outros não me impedem de fazer meu ridículo em frente a eles mesmos. A quinta é uma afronta e o décimo cigarro nem se fala. Se era pra ser em bar, bar também é meu lugar, um dos poucos que sobraram. E nossa vontade de chorar fica beirando tudo que fazemos, caralho. A minha, pelo menos. Cada frasezinha mais saída lá do fundo daqui do meio não lá do fundo da página 437 da pesquisa, mas aquela da página 46 do livro de fábula que dá uma vontade de chorar imensa, como me deu hoje a generosidade enorme de minha mãe dizendo, deixemos pra outro dia. Porque não vai ter outro dia. Como queria tua condescendência me dizendo, ó, viemos do mesmo lugar. Mas tu não é minha mãe e aparentemente não viemos. Tu anda uma rua certa com paralelas e perpendiculares e mesmo elas, aquelas que cruzam adjacentes, con ou incongruentes, aquelas que vão se encontrar inevitavelmente, existe um pensamento nelas todas que nos separa por esse mapa, um objeto sem sentido enrolado ou estendido, sendo aqui na minha mesa. Vou me repetir inumeráveis vezes, porque não tenho outra coisa. Tenho ser perdida e tenho quem possa colaborar às vezes. Tenho olhares condescendentes dos outros, estou em outro estágio, mais atrás, isso eles sempre me darão. Deve ter um nome isso também, comunicação democrática, talvez. Comunicação não exclusiva. Comunicação inclusiva, inclusive, funciona assim: nós lemos e pensamos, todo o mundo já sabe e não haverá novidades e todas as suas besteiras serão ouvidas com paciência. Mas por favor não bebam e principalmente, não chorem, pelo menos em bares. Mesmo que em bares.

para juliana

Cuidado comigo, ando enxergando cada vez mais longe, vasculhando as coisas, andando pela tua casa, quase abri tua janela. Já sei que quem vi talvez não tenha sido você, mas podia ser só um disfarce desses de índio. Ando lendo tuas cartas simples, fuçando tua roupa bagunçada naquele canto à esquerda da cortina branca de correr, com o espelho estreito e todas aquelas tranqueiras dispostas de mulher ajeitada, as coisas penduradas no cabideiro, seus artifícios mal ajambrados. Em certos nanossegundos tive dó, mas dó não é coisa que se deve ter, especialmente eu que perco tanto tempo com teus pormenores. Vi todas as tuas besteiras, fotos horrorosas e uma suposta intimidade. Não sei pra quem é que mentia, se pra mim, se pra você, se para ambas. Mas logo passou. Havia mesmo duas coisas jogadas naquela cama encostada na parede pela cabeceira e solta no quarto e uma delas eu conhecia e não era sua máquina. Não tem vergonha desses artifícios? O que anda querendo por aqui? Não vê que é tudo mentira? Eu teria. E de pensar que me afeiçoaria a você em outros tempos como me afeiçoei a várias coisas que não me diziam respeito. E procurando por um endereço talvez tenha encontrado teu email que de nada me serve.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

segura

se o que temos é isso
é isso que quero
se o que temos é minha raiva
quando sobe e me deixa
se o que temos é queixa
e o que quero é o que temo
o que temos é saudade
é isso
o que temos, nós temos
é nosso
se não temos, pronto
teremos
ou não
se o que temos é medo
cansaço e passado
vou querer isso também
é meu cada passo
teremos juntos
e juntos, separado
porque não consigo cansar
ainda não sei
não me ensine, tenha calma
não saia andando na direção errada
dos pontos de ônibus
entre a mensagem e a calçada
há tempos que tenho medo
de te perder em esquina
na vergueiro, consolação
e principalmente na faria lima
por isso, os mapas
se o que temos, perdi
recomecemos
se o que temos é falta
de água de chuva, de luz,
de cebolinha pelo menos
nunca vai ser
de temperos
se o que falta é leitura
ou escrita
eu arrumo
a cama não sei
a louça talvez
com certa calma do nome
que eu dei desespero
se o que tenho é um carinho
fugidio meio tímido por entre
teu gesto redondo de dança
com as mãos e a cabeça
ou se é um cortador de ovos
eu espero que aconteça
se dele se faz música de madrugada
é isso que prefiro
já que não cozinhamos nada
se o que tenho é um grito
por causa de uma vírgula,
dois verbos defectivos,
redundâncias e metáforas,
viva
se o problema é cotejo,
golpe no portão
filme z de tarde,
eu esqueço e você sabe
se o problema sou eu
segura
que o problema agora é teu
meu chapa

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

velhos não estamos

vou precisar de uma vida inteira
vou precisar de meia
cansei de me assustar com seu susto
veja que eu queria ser aquela
e que essa frase rimasse com teu nome
mas falha, falta e some
como todo mundo
eu não sei dormir
alguém podia me ensinar
mas não se aprende essas coisas
não a essa hora
velhos não estamos, pelo contrário
que me digam seus vinte
e poucos cabelos
que me digam minhas tantas trinta
minhocas na cabeça
e as coisas pras quais nunca ninguém
me diz o esqueça
que eu queria ouvir

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

lava-louças

Nas minhas tardes, as coisas funcionam de jeito diferente. Lavo todas as louças do mundo com rodinhos todos feitos de uma lâmina de EVA dupla, dobrada, por onde entra a sujeira, um resto de arroz cozido misturado a alguns grãos crus e vai ficando um tipo de limo mais líquido que parece saliva e a gente tem que pôr um pouco a mão ali dentro pra conseguir tirar e não sai totalmente, o que acontece é que ele entra mais e se acumula mais no fundo ali pra sempre. Enquanto isso eu também sou ímpia, ele quem sempre me lembra entre maneios de cabeça insatisfeitos e musiquinhas irônicas que existem para não serem ouvidas. Não serão, eu não ouvirei nada que fale por cima do meu tom de voz, eu grito mais alto, eu grito aqui. Aqui pode ser que seja só no meu teclado, na minha cabeça, nas minhas tardes de lavar louça, aqui quem manda sou eu. Se é assim, vai ser assim, até o dia em que bater o cansaço aqui. Ele vai bater e o dono da impaciência imperativa é você, então corre o risco, ele corre sempre sem fim, maratonista, mais resistente que rápido e corre ele assim, em direção a você mais que na minha. Porque eu venho aqui e quem manda aqui sou eu. Você só manda lá nas tardes de lavar louça, você só manda enquanto realmente conseguir me ferir contando e apontando os erros me fazendo a pele parecer uma roupa mal ajustada, de outra pessoa, sentada incoerente em qualquer lugar eu estou incongruente, o raio da palavra. Mas são só alguns minutos até que passe essa tarde e chegue a outra. Eu aceito porque ainda não tenho outra maneira. Minha vontade é assustar, minha vontade é amedrontrar e ser esse monstro, mas não é possível que você já não esteja completamente apavorado. Preciso me lembrar. Nas minhas tardes, quando estou com as mãos cheia de sabão e a xícara preta desliza como uma enguia me causando um espasmo de medo de derrubar e quebrar e o escorredor está todo cheio e meu nariz coça, no meu olho vem a lágrima que não chorei na cebola e não posso puxar a bermuda, de chinelo, bem horrorosa, com um esparadrapo já ficando amarelo com a mesma mão que apertei aquilo que comemos e a que você chama por PTS para não dizer o que não é carne. E não é mesmo. Está tudo soltando, como deve soltar-se o corpo inteiro caso consigamos soltar a costura que amarra o umbigo por dentro, solta-se tudo e ficamos como nos sonhos podendo virar, de repente, uma árvore, outro parente, aquele moço. Hoje chorei apertado e doído mas não foi por você e ao mesmo tempo sim. Me lembrei do azedume meu, da minha falta de paciência e humor flutuante quando chegava eu e o outro estava aqui, sorridente, feio ou lindo, estava sempre aqui. Às vezes tinha cozinhado, às vezes comprado uma coisinha e tomando cerveja com algum amigo, mas sempre me sorria, me beijava, me contava uma piada que me deixava mais pra cima como que para compensar a tristeza que ele mesmo me trazia e sabia tão bem. Assim faço eu a você. Não podendo ser tudo que me exige, nem metade, mas ainda tentando, aceito as grosserias sorrindo porque sei da dor profunda que sente ainda, porque sei como ainda tem medo que eu vá, de ficar, porque de alguma forma um medo gigante paira por aqui. Também para mim, também é assim. Então vamos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

viagem intergaláctica à pôr do sol, meio dia

Ao custo de muito café e cigarro animigos psicografei o esboço todo do meu anteprojeto, ou seja, escrevi de início calma, pensada e pausadamente e no final fui usando minha (e de todos) famigerada escrita automática pra ver se terminava logo e porque a clareza mental imensa que vem no começo na manhã da noite não dormida, ao chegar ao meio do dia começa a ser delírio solar.
A vontade era chorar ou tomar banho, mas tive que insistir, depois de escrever tanto sobre o espaço público como eu ia lá chorar no banho? Os conflitos se resolvem na rua e coletivamente, havia dito eu poucos parágrafos atrás já meio trêmula e com estranhos (pros outros) tiques nervosos no ombro esquerdo e espasmos generalizados.
Olhos regalados pelas visões e audições dos amigos em expedição gráfica enquanto redescubro as verdades da mexerica, esse universo.
Calça cheia de bolsos. Bloco, caneta, 4 cigarros, isqueiro e chave. Água bebe antes, pode até ser uma coisa a tentar fazer na rua, banheiro idem. Em banheiro nem pensei, hoje, na real, já tinha pensado demais nisso e tive meu pobre coração despedaçado no processo.
Já nas lonjuras da nazaré começa a surgir a dúvida de pra onde ir. O primeiro impulso foi seguir pela rua que dá na praça das árvores de dreads subíveis, onde sempre pude me disfarçar como personagens de desenho animado em moitas, mas logo vi que não era lá.
Devia e poderia ser vergonha uma pessoa tentando escrever algo do naipe que estou ainda não saber chegar à pôr do sol mas é o que é. Tudo que escrevo e pretendo, faço por mim, antes de tudo, porque me serve, carapuça sob medida.
O que me levou à subida mais acertada na direção foi saber que era subida. A engasgada que o carro havia dado ali antes e a tua respiração, é, a tua mesmo, bem forte economizando sílabas de reclamação. Vamos subir.
Nessa confusão de pra lá ou pra cá, no meio da avenida, a confusão já é geral, passamos despercebidos por pedestres assustados fugindo de carros e ninguém estranha.
A entrada na segunda depois da camillo sei lá é que me deixou com vontade de seguir na rua errada só pra não ter que voltar diante dos olhares sanguinários dos vigias. OK, não é piada que se faça, mas me parece que eles, nas ruas são as das poucas pessoas que observam e se perguntam. Quase todo mundo já sabe o que está indo fazer e diante de uma rua onde só se anda levando coleiras por entre plantas construídas e só se pára com mangueiras, vaps, pincéis, vassouras, catálogos da avon e uniformes, titubeação levanta dúvidas e suspeitas, apesar de ser eu uma mina. Ou principalmente por isso, sabe lá.
Fico com vergonha tremenda de não andar com segurança pra lá e pra cá como tantos. E um instinto mortal me faz querer continuar com a insegurança indisfarçável pelo caminho incerto. Às vezes pode ser bom, mas hoje queria ir lá, sabe?
Passando na frente do hospital, um pouco mais de vida se manifestou. Trailer de cachorro quente, gente conversando, ponto de táxi com gente embasbacada olhando pra tv, conversa, amarração de tênis na calçada, entra, sai, criança, mãe, adolescente. Fiquei pensando quantas pessoas da américa poderiam entrar - entrar mesmo - lá e se era certo usar o nome panamericano caso não fosse tanta gente. Acho que é pra cá.
De novo a subida como indicação e me pergunto quem será que foi o arquiteto Jaime Fonseca. Tento dar meu próprio tempo ao atravessar a rua, alguns carros são implacáveis, nos outros há pessoas dentro.
Despontando ali no primeiro quadrante do meu olho (minha visão é na verdade oval) vi um suporte de balançaaaa e um assento de gangorraaa. Primeira coisa que pensei é, vou subir aí, sentar aqui com meu bloquinho. Quando tiver alguma coisa pra escrever. Vai ser lindote.
Tudo meio vazio, grama meio suja. Fui indo em direção ao caminho do cimento (quantos não pise na grama já lemos por aí, na vida? e grama costuma crescer onde?) na direção que ia, estava Antônio. Ainda não sabia, claro. Cheio de bolinhas vermelhas na mão, já de longe me ofereceu uma. Ri aquela risadinha de gente besta (ah estou de regime ditatorial, o cachorro comeu minha lição, minha mãe me disse que, olha quanto pau seco no chão) fui chegando mais perto e vi que eram pitangas e que elas cresciam ali mesmo e que ele tinha várias e tinha não só me oferecido, mas insistia, como minha própria mãe fazia. Eu quero uma sim, brigada. Que delícia de pitanga azeda. Fato, não poderia ser melhor. O gosto da pitanga era o mais sério ali. Joguei minha semente no chão e dei uma pisadinha pra entrar, ele me olhou meio censor. E logo veio Francisca. Mais gente foi chegando, rolou um aeromodelismo sem motor em direção à rua que deixou todos correndo atrás da fronteira. Antônio foi correndo junto oferecendo pitanga ao que sobrou. Vi uma cara de dúvida e de longe fiz um joinha. Mais de duas pessoas comendo não deve dar errado. A gente devia ter medo é de hambúrguer, não de pitanga, mas a vida é curiosa e eu mesma... lálálá.
Conversamos os três alguns segundos e fui seguindo meu caminho. Agradeci pela chance das pitangas e disse que talvez não tivesse comido se não tivesse recebido assim tão legal.
Continuei andando ao longo dos bancos, dos caminhos, ousava um gramínea quando em vez e fui procurando o que me atraísse. Não queria me aproximar das atividades alheias onde não fosse desejada. Achei quase no final uma espécie de precipício, parecia, com uns quadrados de cimento lado um metro com beiradinha de sombra de árvore. Vou sentar ali é agora e já sacar minha bloquinha pra dar uma de quem tá fazendo alguma coisa:

1a saída pça por do sol dúvida da rua vinha de medo de parecer em dúvida. Medo de parecer que não sabia onde ia. Isso não é pra dar medo. Sanada instantaneamente. Despreocupação c/ desconfianças dos olhares alheios. Quase todo mundo que está na rua está trabalhando. Pássaros. Casas cuidadas. Perto do Hospital gente e comércio_.

Cheguei pela cidade alta e lá no elevador lacerda do meu precipício encontrei com Antônio e Francisca que tinham vindo pela cidade baixa. Você aqui? Quer mais pitanga? Desenhamos Nina e seu colega do vizinho. Quem é vizinho? Quem é você?
Analisei então os objetos-lixo ali em volta. Tampa de requeijão, uma meia, copos mais longe e cheiro de mijo bastante próximo. Levantei e seguimos.

Ele tem problema e só conseguiu andar aos três anos, ele está achando que você é Manu, uma amiga que tem o cabelo assim, ele tem dificuldade, ele tem isso, ele tem aquilo. "Ele só não tem é medo de pitanga, gente e conversar." Desenhos distribuídos de acordo com a propriedade intelectual de acordos informais estilo CC caso 3, seguimos, cada um pra seu lado. 247 passos à frente me gritou tchau, e ganhei além do dia, a semana toda.

Aí pude fumar.
Fumei voltando já desenvolta na gramínea, até arrisquei uns barrancos acima passando por garis que estavam ali tão sentados quanto todo mundo. Achei foda (foda=bom, no caso de dúvida) porque interessam menos os lugares ocupados pelos lixos que existem de qualquer maneira e ocupam aaqui ou ali que os lugares ocupados pelas pessoas, especialmente os garis, que juntam-se aos vigias e aos carteiros em suas observações.

O cara debaixo da árvore me disse show de bola e meu casaco caiu.
Tentei olhar para a dona da coleira, mas ela não teve coragem suficiente e resvalei pro terceiro quadrante. Motoboys abandonavam motos por alguns segundos e falavam ao telefone deitados, outros dixavavam.
Na volta ainda passei pela balança e pela gangorra mas os aeromodelistas sem motor estavam ocupando tudo e já era hora de embora. Ainda consegui apagar a bituca antes de dar mau exemplo, sorrimos na abcissa e desci pelos princípios de imagens que me trouxeram: ponta da gangorra, arquiteto jaime, rua perigosa para gente sem carro, rua galvão sei lá. Putz cortei até um caminho, ó. A segurança foi de novo se instalando nas imediações da vizinhança. Um caminhão de gás helio não sei se me dá uma passagem ou pro carro, evitei cruzar olhares. Evitar cruzar olhares com agrupamentos de homens mais que um é uma constante na vida de muita mina, inclusive a minha. Burrice nossa que não aprendemos a fazer alguma coisa. Próximo passo: parar de evitar isso e criar uma situação de reversão desse medo de ter a bunda olhada porque vai acontecer. E quem sabe cruzando olhos uma comunicação melhor aconteça. Menino e mochila e boné indo pra escola e eu nos assustamos um com outro na esquina de flor rosa com espeto pra afastar os outros e de volta à nazaré. Passei pelo posto, tentei cumprimentar o moço, mas não chegou a me ver. Carro com chantili, portão do vizinho sempre aberto como o meu, um dia entro na casa dele, porta, sala, água, banheiro, escada, computador.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

xixi

Mas eu não tinha decidido essa merda justo por isso? Pois então foda-se. Ontem sonhei com um chapéu bem engraçado e meio idiota, um chapéu feliz e estava tudo bem. Ontem enquanto fui ao banheiro uma moça estava cantando essa música:

eu te vejo ressonando
o meu sono foi embora
pela cama estou rolando
sem dormir até agora

e teu corpo delicado
eu não canso de adorar bis
e não durmo sossegado
so para te ver sonhar

sonha sonha minha amada
em teu sonho quero esta
sonha que es uma fada
que eu vou te desencantar

sonha sonha minha amada
so comigo e tudo bem
mas acorde nun estantinho
se sonhar con outro alguém,

E eu estava achando a coisa mais linda do mundo, estava sim, ela não sabia direito a letra e só sabia a parte do sonha sonha minha amada, a próxima frase ela também não sabia, dava um enrolada laralilá e dizia sonha que és uma fada, eu é que vim procurar a letra na internet. Tem tudo na internet, já te contaram? Bom, pois lá estava eu fazendo um xixi muito transparente e feliz em pé naquela privada que me deixa extremamente curiosa porque não tem o assento, só tem a tampa e gostaria muito de saber se fechada aquela tampa ela entra dentro do vaso ou não entra mas não ia testar pra não sujar tudo e rebostear o banheiro e estava lá toda feliz, acertando todo o xixi transparente bem dentro do vaso, filosofando sobre a tampa, achando linda a moça cantando quando a moça do banheiro me falou bem brusca assim vai demorar muito aí? e aí eu me mijei na perna toda, claro e disse não, já saindo, só fazendo xixi.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

espelho

Mas só ainda?
Duro. Conviver com quem achava que tinha, não sabia, achava que tinha e perdeu, havia, não sabia, achava que sabia e perdeu o mundo.
Éramos dois. Achava que tinha começado e me vem justo essa dor aquela subindo a heitor, do pão nojento de catupiry, vem bem ela agora, tão específica no que quer dizer e onde acontece. Acontece aqui, bem aqui e quer dizer não há mundo.
Houve, um, dois, mas não há e se sabe que não havia.
Pior seja talvez ainda achar que há e nem por isso me solidarizo como se eu estivesse já fazendo muito estando viva e convivendo com tantos cabides, são muitos e sinto de novo profundo também por você porque sabe que não há mundo mas tenta.
Não há que ter ninguém nada que entristeça fora o que escolheu pôr dentro porque sei que tenta só aí e aqui fora não há sinal nenhum, não vejo e ninguém já ninguém jamais viu nem verá mas tenta porque ainda está.
Ainda tem vez em que enxerga longe, eu vejo também, parece, redondo, umas vezes azul, outras cinza, parece tanto e está longe, não dá mesmo pra ver, mas queremos sentir que se sente, mas queremos reações tanto que elas aparecem químicas em pequenos tubos azul e branco e formam as linhas horizontais e verticais todas de tanto querer que formamos ali no longe ele pequeno parecendo que gira, parecendo que em torno de alguma coisinha que brilha, parece e parece de tanto tentar e acaba parecendo e vendo.
E não há nada.
Talvez, cabides, há coisas, mas não há nada porque seria o mundo, se houvesse. Há outras coisas e essas coisas não são o mundo, são apenas as vidas que agora flutuam no que não há e lavam as facas ácidas pensando absurdos que são tão comuns por aí nesse mundo que as facas enferrujam de tanta acidez, afta, as bocas, não há como aguentar mas insistem de puro medo de se olharem no espelho cada um ou olharem um pro outro cada um e dizerem não há mundo.
Mas depois na memória tudo se parecerá com ele.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

cebola

O não-feito me deixa parando pairando pela casa. Meu grito encerrou aquela mangueira que esguichava água sem fim e ainda foi tão sem querer. Só escuto cada coisa da rua quando ela pára. Tiveram a coragem. Depois de tanto dilúvio, agora está tudo relativamente calmo. Aqui dentro dessa casa, nós todos estamos tremendamente calmos, distantes de deslizamentos e nem mesmo saberíamos do que se passa caso os próprios amigos não tivessem vindo se refugiar, passa que a água é muita, brota do chão, do filtro, do teto, do céu, da janela, dos olhos. Estou apaixonada pela cebola e suas cebolinhas. Minha vontade é desenterrá-la e poder ver como é que tudo funciona ali embaixo mas nessa vontade de enxergar o funcionamento das coisas matamos a vida inteira, que me digam os filósofos de suas façanhas. Tuas camisas, mesmo depois de lavadas ainda têm cheiro de amêndoa e começo do feito me deixa doida de escrever. Só faltam 10 páginas de um e 111 menos 83 de outro. O espinho que pisei no dia em fui mexer na macumba dos outros está vindo para me rememorar e me mostrar que uma parte dele ainda está aqui, depois de um ano. 28. Quem é que disse que podemos confiar nas calculadoras? Preciso urgentemente ir embora e não sei onde começar e como te deixo aqui sòzinho? E você nem está, provavelmente correndo ouvindo as músicas que ninguém mais consegue e os silêncios de tantos intervalos como se o que houvesse entre eles fosse coisa. Pelo menos dessas que se podem contar.

Que coisas são essas que eles parecem saber e se entreolham contando secretamente em quase invisíveis viradas de olhos? Eu não sei.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

brasil

Hoje o Brasil é independente. Do outro lado da praia construí um forte, muralhas, canhões, estacas e de longe o inimigo não vê que são de areia. Foram extremamente bem feitos e eu, deste lado, também ainda me espanto como parecem ser de metal, pedras e cimento, são de perfeição oriental. Vi o inimigo passando longe e com minhas próprias armas me cortei, lavando-as e que besteira deveria ser lavar algo cortante como se fosse louça. Não sangra muito, nada é assustador. O inimigo passou ao largo e não me viu. Estou fracamente protegida mas aos olhos o que se diz é outra coisa. As conversas de quem tudo sabe, as formas monstruosas, nada impede que o sangue saia não líquido, mas se espalhando por tudo e não deixando tão claro de onde está minando. Está tudo em seu devido lugar e após ter feito uma ou outra coisa, elas ainda faltam, tudo estará pronto. Com tanta calma quanto é possível, com tanta certeza quanto não é e antes da demolição ainda haverá formas e tempo para permanecer na torre e em suas intrincadas e delicadas construções de monge budista, cores inclusive.

não muito

Hoje tenho que guardar as chaves debaixo das pedras mais pesadas porque já não sei o que é que controla a membrana que nos separa. Queria que a água que brota brotasse menos, que a raiva que surge nascesse menos, que o que fosse meu, fosse meu de fato. Mas nada quase é. São vagarosas as teclas que vagaroseiam as entradas, são pequenos micro toques de mentiras ensaiadas. Eu não perdoei as tuas coisas repreensíveis como te fez entrar no segredo das minhas e as coisas que estão soltas. Eu não vivo mentira sorrateira. Aqui não há nada que se possa surpreender porque o que é, é. O que está se apresenta. Por favor, por favor, não tenho mais direito a lebres. Que vida se faz disto? A que vida nos prestamos obedecer? Queria a levez da culpa que não carrego mais, por favor pare de me entregá-la. Eu não quero ter medo e tenho pois lá ele existe sabendo da tua força maior. Eu quero a tranquilidade de minhas pedras pesadas e é lá mesmo que elas não existem, apagadas porque não posso decidir sobre o que permanecerá. A tristeza de teus dedos que precisam de tuas próprias negações já que as minhas não servem. Minhas senhas, meus códigos inexistentes, estou sem roupas, sem gavetas, sem cantos, no meio do espaço vazio que não existe sem fresta onde se encoste, apoie, esconda coisa qualquer. Uma presa fácil sei, sou, com minhas formas julgadas, analisadas, criticadas. Eu não sei disso como não sei do futuro. Estou inconjunta, me respeite o silêncio, me respeite a falta de presença e desejo, me respeite tudo, já que meu próprio tudo não pode ser respeitado. Quase compreendo, mas não muito.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

para cerla

Um dia cheguei em casa e meus filhos tinham ido à bicicletada, deixando tudo bagunçado na sala, cola, tesoura, pegaram algumas réguas para sustentar cartazes, papel cortado e aquela zona, sabe? Mas fiquei feliz e orgulhosa por terem conseguido finalmente fazer uma coisa sem me pedirem permissão ou sem que eu tivesse que ajudá-los, afinal eles já estavam aprendendo a falar, mesmo que com certa dificuldade, eu mesma até hoje entendo muito pouco. Quando chegaram, vermelhos de sol, estavam felizes e saltitantes e me trouxeram um presente: uma bola de mais de um metro de diâmetro feita de uma espécie de fita de fibra natural que não passava na porta, por sinal, e me disseram que tinha sido usada para um não sei o quê, não entendi, não me preocupei muito e agradeci o presente de grego como agradecemos cheios de carinho aos desenhos horripilantes que nossos filhos fazem da gente com o braço nas costas, o olho na testa, o cabelo verde, essas coisas. Como achar ruim, ? Não dá, gente, é uma graça. Bom, ganhei a bola em setembro de 2007 e até agosto de 2009 ela ficou debaixo da escada junto com a cadeira do Waílton, o guardinha da rua, e outras coisinhas que acabam se acumulando por lá, no chão: baratas mortas, panfletos com liquidações de supermercados, penas de pássaros, folhas secas, bitucas de cigarro. Mas não é fácil, gente, temos que estabelecer prioridades: a minha era ficar com a barriga no fogão e gritar tá pronto mais alto que o Ricardo consegue gritar mal passada ou bem passada oito vezes toda vez que tem carne naquela casa. Gente, tudo bem, eu não ligo, a pessoa não precisa ser vegetariana e politicamente correta, mas também preciso poder gritar essas coisas aqui na minha casa se não eles vão pensar que eu não cozinho pras crianças, o que não é verdade. Hoje fizemos tapiocas infladas, uma inovação digna da cozinha conceitual contemporânea: parece uma coisa, é outra e, ainda, tem gosto de uma terceira completamente diferente. Meu marido às vezes me cansa porque não ajuda em nada, sabe? E fica pra lá e pra cá com essas coisas eletrônicas e na semana passada mesmo quase explodiu um multímetro na tomada em que ligamos o forno e agora a tomada não entra direito porque o metal derretido ficou lá dentro. Acho certo a pessoa ter um hobby, mas gente, muito ajuda quem não atrapalha, ? E Deus não mata, mas castiga, eu bem que disse pra ele: você não entende nada dessas coisas e ainda vai explodir a casa. Dito e feito: não explodiu a casa, mas foi quase. E ainda veio me dizer que acha que foi meu olho gordo. Gente, vocês acreditam? É uma loucura, aqui em casa. Mas voltando à bola, depois de dar aquela faxina geral aqui em casa, resolvi fazer alguma coisa com ela e como não passa na porta e não posso jogar fora um presente das crianças, pendurei na escada. Venham aqui dar uma olhadinha quando tiverem um tempinho, faço um café, umas torradas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

acho

Subi correndo achando tanta coisa que nunca tinha pensado em procurar em lugar nenhum desse monte de lixo que saiu e foi tudo embora quando ainda vi os tules sendo arrastados cor de laranja, coisa de roupa de mulher, de vestido de festa, embora não fosse, sendo tudo arrastado no chão e indo embora com os uniformes e tudo mais que não se usa mais, vi que um tanto da minha memória estava sendo gasta ali e não como se poderia pensar, um tanto pequeno, era um grande e tanto, ocupando tanto espaço, cuidado com essa palavra, todo o cuidado é tanto, quero ser outra coisa, mas há ajuda, há tudo e tanto a ser feito e está, junto com os tules, eles me atrapalhavam, como confundia tudo a amarração do varal e a coisa que é feita pra ter um tamanho e fica pendurada a um certa altura acaba precisando ter que se arrastar ou então faz-se outra coisa se tudo se embaralha no meio da visão e no meio do caminho e engraçado é que em vez de ter medo da presença que era constante e mesmo na minha imaginação além de aqui mesmo abria torneiras, escondia cigarros, acendia e apagava luzes, cantava músicas, chamava meu nome e o medo disso era quase graça, medo mesmo foi tudo vazio e o vazio da janela me olhando no escuro e o zumbido do silêncio me contando que não havia nada e o estalo da escada era só mais uma árvore morta e no banheiro era só o vento que balançava a porta e o fantasma era pesado e carregava e levava tudo mas levava principalmente minha memória e ocupava, ocupava a casa, a cabeça e andava pela cidade inteira ou pelo menos até onde eu tinha coragem de ir, onde eu podia levar, muito se perdia comigo e me acalmava se tivesse que chorar, me jogava uma caneta caída de algum lugar nas mãos para que pudesse rapidamente escrever, me voava um papel na cara, caía um livro no colo, me aparecia o mundo inteiro num café enquanto ainda se perguntava por cigarros e eu não podia ver o mundo todo e a vida e não sei já se posso ver que me tira a paz me confortando, quase me arranca a cabeça virando-a para o lado onde preciso olhar, não sei se vejo já com clareza, mas dorme na cama amarela, na casa amarela de barriga pra cima, braços cruzados na barriga como se estivesse mesmo morto não estando, vive e ronca como a porra, e quando?

por isso

o cabelo voa um pouquinho
do outro lado do ovo
não, o outro
por onde voa o moinho
eu também não li esse livro
mas são só poucos fios
quero dizer
eu não li esse livro também
continuam as correntes
não
em volta do pescoço
esse é outro livro que não li
os papéis contornam os medos
o ponto até onde me comovo
está a cada dia mais perto
os anéis em volta dos dedos
se aproximando do ponto
de partida, do ovo
voa um pouquinho
mas são poucos os fios
e as correntes
em volta do pescoço
muitas
de material grosso
mas parece fio de nylon
invisível e fininho
mas feito de coisa
que não desintegra
nem recicla
feito, assim, sabe?
de escolha
e não tem água que chova
não tem calma que encolha
não tem paz que bifurque
não tem paz que eu prefira
não tem também truque
esses de mãe e de filha
não tem nada por que troque
nem nada que confirme
quase nada que me toque
pouca coisa que afirme
mas ainda voa um pouquinho
mesmo que sejam pouquíssimos fios
não importa a quantidade
importa mesmo quando passa o dia todo
importa mesmo sentir o medo de antemão
e na hora não vir
porque não precisava
porque não precisa mesmo
onde vou
não precisava mesmo
por isso
onde vou
por isso

terça-feira, 25 de agosto de 2009

salvador

Queria uma resposta pressa tua urgência e não vem. Cheguei aqui dizendo boa noite às pessoas que me esperam como dizendo porque não começa logo o que vai dizer em vez de perder seu tempo entre boa noites e segundos desperdiçados e você é maior de idade me perguntava o rosto da moça da banca. Quando cheguei lá, como outros europeus, na primeira semana, meu desespero era logo aplacado por alguns segundos sem resposta para perguntas que fizesse, uma respiração profunda e uma saudação bom dia, boa tarde ou boa noite. Localize-se no mundo, no tempo e no espaço antes de me chegar desesperada para saber onde é o banheiro, a sala, a entrada, quanto custa a cocada, onde fica a Centenário, sou uma pessoa, também. Cheguei aqui passando pela Marginal Tietê e me deu um susto enorme aquilo a que tanto nos acostumamos de fato parece o fim do mundo, já imaginei todos nós radioativos, com roupas amarelas e máscaras, guardando frutas em gaiolas porque não sabemos mais pra quê exatamente é que elas servem, no meio de restos de árvores também radioativas ou o que sobrou delas, prédios feios, parece não haver quase ninguém, a não ser os vestidos de laranja e capacete por sobre plataformas de cimento e estruturas metálicas, construindo, descontruindo e reconstruindo as mesmas coisas sem que nada lhes seja perguntado: o que seria bom ter aqui em volta? Tem uma coisa muito errada aqui, como em toda cidade onde já fui, mas as cidades existem. Se é pra choramingar, pode-se fazê-lo em qualquer teclado, presumia. Aqui estamos e aqui estão os carros que também estão lá, fato é que não os usava. O calor não me dá medo da chuva, molhar o chinelo nunca é tanto problema quanto seria o sapato. Levar só o dinheiro do côco, o guarda-chuva, um bloquinho e uma caneta, cuidado com a sombra dupla refletida nas ruas desertas de noite é igual a tomar banho gelado, tudo parece estranho até que se torna natural e estranho vira o contrário, o encontro com o rio. Lá não pude encontrar porque estava soterrado por uma pista de cooper onde passava todos os dias praticamente, só que não corria. Tentei me entender com linguagens em C e nada pude fazer além de compreender que mais e mais precisamos saber sem fim pra poder viver a vida sem as culpas de fortalecer o inimigo e que não haverá para isso tempo hábil em existências individuais e que somos todos dom quixote. Antes fôssemos, somos alguns dom quixotes e somos montes de boquiabertos tentando lembrar o que é corrente alternada, esfregando álcool nas mãos, tentando lembrar da fórmula do volume das coisas sem conseguir de fato enxergá-las, sem coragem de sugestões, vou repetir: passa o álcool em forma de quadrado e depois repete. Dom quixotes lutando contra antenas de celulares, o inimigo invisível. Não importa que as filas no banheiro aumentem incalculadas vezes, o importante é que você veja se seu colega de classe está lavando a mão e cobre isso dele e reporte à diretoria caso ele não esteja. É tempo de caguetagem estimulada e máscaras que antes não víamos mas sempre estiveram aí. Lá a diferença é pouca mas imensa. Reconheço as ruas e as pessoas, que não me reconhecem de volta e me pedem cigarros em inglês, me tentam vender o que for que exista e me contam como não se deveria sozinha subir por essa rua, passar naquela pedra, parar quando ficar com medo, subir o escadão devagar, fazer de cachaça terapia, fumar tanto pra quê tanta vergonha. Confundo organização com carinho, tempo de demais em São Paulo, me pergunto e não sei onde é mais difícil e não sei mesmo o que difícil quer dizer. As ruas me mostram um pouco, quase sozinhas, para onde as coisas andam e, como quase nunca na vida, um pequeno mapa da cidade se esboça em mim e coincide com uma ideia vaga na cabeça de onde as coisas se localizam, aquelas que me encostaram em algum momento. Piedade, farol, corredor, passarela, a praça da sé da minha cabeça era tão maior que aquela que encontrei, tão maior. E a pobreza se não maior, mais escancarada que já maior me exigiria uma série de conhecimentos que não tenho e se não é filosofia, não precisamos explicar quase nada sobre aquilo que parece que pensamos sozinhos mas alguém já tinha pensado antes e portanto isso não é absoluto. Nem maior é. E deve estar mesmo tudo errado que essa coisa de ficar dissecando muito as coisas todas só nos levam a perder o sentido de tudo que é coisa. Isso alguém também já deve ter tido, como todos os outros. Eu estou oficialmente cansada.

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

casa dos quarenta

Foi um sonho ontem, eu estava novamente naquela casa, aquela cozinha com as aberturas para os dois lados e o outro, as coisas todas que não poderia tentar descrever. Cansei dos anos, na casa dos quarenta, vivia lá sozinha, quando olhava para os lados e pensava, mas quem limpa tudo isso, o mesmo que minha mãe perguntaria, me dei conta de que sim, havia alguém que fazia esse serviço e não era eu e que naquele mesmo dia que não era de sol nem nada, mas era dia e não estava escuro, estava iluminado branco, não amarelo, entrava uma fresta de luz por cada porta e janela e dentro era um pouco escuro. Meu cabelo era um pouco mais ralo e curto e eu vivia lá sozinha, tinha uma piscina, várias portas um quintal enorme e eu comi uma coisa ou outra que já estava pronta na geladeira, lembrando que tinha sonhado com Cecília, que me ligou ou liguei para ela, não lembro. Há poucos dias me lembrei daquele tanto de livros me que meu porque sabia que eu leria e agora estou aqui prestes para começar um novo, da tua própria leva, tua coleção, tua cria. Essa vida de professores, todos sempre tentando ensinar, esses todos professores que desde que nasci e até hoje aos quarenta me rodeiam, no meio da casa vazia, no meio dos sonhos e eu nada de aprender coisa nenhuma dessas que têm serventia. Passava os dias na casa meio sozinha e alguém quando eu não estava, provavelmente vinha e limpava tudo não deixava um único grão de poeira, não deixava nada para eu poder sendo também minha mãe perguntar que coisa era aquela. Ontem, no meio do desespero de não mais me saber amada por uma ou outra parte do corpo, tentei construir, como fazem os homens, e nada conseguiu se prender. Um tijolo não assentava ao outro, eles ficavam soltos como muros de brincadeira, desses que se vê assim em brincadeiras e que se pode empurrar com as mãos e caem desvergonhada e vergonhosamente aos olhos de quem estiver junto das mãos que tiveram coragem de empurrar. Não há como construir, não há como querer juntar absolutamente nada que sejam pedaços separados de coisas que foram coletadas cada uma em um canto se elas não pertencem juntas e só a noite, os dedos, as substâncias materiais e outras um pouco menos é que decidem, por elas mesmas o que pode e o que não pode andar junto, como mulheres de quarenta anos que decidem por ser sozinhas em casas limpas de poeira por motivos variados decidem que certas coisas não andam juntas mas simplesmente porque ela assim talvez não as queira, e não só isso, porque nem todas as coisas se grudam aqui nem ali nem em nenhum outro lugar. Como se pode pegar um pouco de terra de um canto, outro de outro, juntar areia, água e o que mais vai em um daqueles paralelepípedos que saem de lugares tão distantes e de pés tão diferentes que os pisaram e mãos e máquinas que encostaram e se junta tudo e se junta a outras colas e ligas e conexões e vigas e a isso se chama casa e se entra nela impunemente sem nenhum grão de poeira e se diz, vou morar aqui e aqui é minha casa, na casa dos quarenta?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

saber

Eu não aguento, não seguro, não tudo, nem tudo. Eu também sou uma princesa e uma bela adormecida branca de falta de sol e falta de neve, de sol da manhã, de sol do nordeste, de sol, sol em geral e também sou tudo em que não se acredita e uma miragem, mas há sim, senhor, um jeito especial com que se trata todo mundo que tem uma porra de uma racha no meio das pernas e têm possibilidade de, não sozinha - que se lembre sempre - dar vida a uma outra pessoa, completamente diferente de você e não e alimentá-la por anos se for o caso. Há que se acreditar na verdade das minas e nas coisas que elas sabem mesmo que façam suas cagadas, também cagamos sentadas e quebramos cartões e perdemos o prumo, o rumo, o pó, o dinheiro e o fumo, andamos no mesmo passo, eu ando no teu te esperando, esperamos coisa e outra, bem de acordo com as diferenças. Nós. Sabemos exatamente quanto existe vontade de que coisas funcionem e aconteçam e vontade de não ou quando, ainda, existe a vontade de que sim e a força incontrolável nos empurrando para o lado onde não era. Conhecemos a vontade de vingança sem fim por enfeitiçarmos a porra da coisa toda que só queríamos perto por algum outro motivo que fosse menos trágico e determinista, mas corre a vida sem que consigamos enteder propriamente nosso próprio poder e a tristeza imensa que é tê-lo. Crescemos sabendo e ouvindo de todos os lugares todas as coisas e todos os alertas, conselhos e mesmo ainda que a compreensão infinita de algumas de nós goste de desafios à nossa paciência e amor, nem tudo é possível, não tudo, não sempre. Mas se há em algumas de nós - e com o perdão da generalização, há cromossomos que partilhamos, caso não haja mais nada - amor e muito e tanto que se perca de vista aquilo a que não existe possibilidade de vislumbrar, também temos de onde, sem fim, tirar, essa mesma força de aguentar o desprendimento sanguíneo da pessoa que esse mês não existirá, e de continuar, quando assim se mostrar possível, a ensiná-los duas ou três lições diárias sobre a vida que há e continuarmos aprendendo sobre o que não se precisa saber, mas se pode, desde que juntos e em vontade conjugada em tempos presentes e futuros. Temos sempre mais duas ou três coisas a ouvir, vocês, eles, nós, pessoas que não existem em certos tempos verbais, impensáveis e não é vergonha aprender, como não há mérito em ensinar e como essas duas coisas não passam de absolutamente a mesma, para todos. Para todos que tiverem coragem, esse bicho morto, como nome de nada, um bicho de ontem que já fede e nos conta sobre a passagem do tempo, sobre a tristeza que há na impossibilidade quando ela vem, não de desejos que brotam simples do corpo inteiro, cabeça e outras partes, mas quando vem de um lugarzinho triste e vem pensada, planejada, arquitetada em forma de lição. Assim não funciona porque não posso me dar com comportamentalismo, não eu, nunca pude, perdoe-me, se possível for e venha para a vida sem fim e deliciosa do amor que existe para quem consegue de fato se abrir sem choramingar o que foi, o que poderia ser e o que talvez venha a não ser por pura falta de saber o que ninguém de fato sabe.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

samambaias

Dói aqui dentro, ó, bem nesse lugar. Não há desculpas porque não é nada demais, não precisaríamos perder aquilo que marcamos com desculpas de menina e tudo que estava empilhado e estocado agora sai entre líquido e pedaço e as samambaias andam fortes, fortes, preparando o terreno para as plantinhas mais fracas que poderão vir depois e, de delicadas que são, precisam de tempo.

semente

tudo que eu sou
e tudo que eu preciso te dizer
são coisas diferentes
interseccionadas
uma nós perdemos
outra ficou em uma das escadas
enquanto descíamos
derrubei café e deixei sementes
soltas também nascem
meio por cima assim de algum modo
elas entram pra baixo e
saem em cima ao mesmo tempo
já vivas como as coisas que penso
aqui crescem lento
sem tamanho nem senso
e com tanto e enorme
sementes
interseccionadas
de uma lado nascia café
solta, sem vaso, somente
do outro brotava raiva, o mesmo pé
se agarrando pra cima e pra baixo
ontem enquanto esqueci
no lugar onde seria o corrimão
o que ia te dizer e ficou solto no ar
não pegue tudo, suba e vá para o quarto
sonhar com o horror, três ou dois, mil e seiscentos
nunca mais vou pensar nisso
nem te deixar encostar

não acontece nada

Estão mesmo crescendo dois pés de mamão das sementes que você jogou no vaso no dia seguinte ao que chegou, elas estão crescendo por cima da terra, não foram nem enterradas. As plantas agora não param de me impressionar. Hoje molhei todas e fiquei uma parte da tarde olhando aquele universo que se formou onde você deixou o mamão e botou um pedacinho de chocolate. Até o outro dia, o chocolate tinha escurecido, encolhido e estava com pequenas bolhas de água na superfície, as formigas andavam por ali com uma tranquilidade que não têm dentro de casa, elas andavam devagar e calmas, como são diferentes as pessoas que moram na cidade e no mato e iam andando com micro pedaços de chocolate para lá e para cá. Agora quase não tem mais a água, está menor ainda e as formigas deixaram de se importar com ele, não vão mais lá e ele está quieto e esquecido. As sementes secaram e se abriram e duas nasceram, dá pra ver o raminho saindo de dentro do que era a semente e agora é a planta, ela está por cima da terra mas está presa, fui lá mexer com cuidado e vi que não sai fácil. Depois fiquei aqui pensando ouvindo a música francesa, as palavras que não entendo. Estou agora esperando acontecer alguma coisa e não acontece nada.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

sociedade secreta

Hoje, em sua homenagem, em vez de ler meu livro na cama, como sempre costumo fazer por volta das oito da manhã, fui fazer isso na praça porque senti que já não era possível dormir, assim como não é possível manter a promessa com um por causa da combinação com o outro e tudo isso porque eu mesma já existia antes e bem antes, acreditem. As culpas doem, barrigas e peitos incham e nenhum filho é produzido. Sublime sucesso, a perseverança é favorável. Primeiro, resolvi ficar onde se fica para esperar o ônibus, mas um caminhão basculante jogou meus poucos cabelos soltos pra dentro do olho, voou a folha do livro pra outra página e já vamos ser sujeito de estudo, por que não logo virar objeto e sentar ali no meio não fingindo que se está a esperar aquilo por que nunca espera, mas aquilo outro, a que passou a esperar desde que passou a voltar a conseguir ir assim, adiante, página por página, número por número, letra por letra, se formam as palavras e os pensamentos e um vesgo me olhou e, dizendo para outro, cruzou meu olhar e disse sim para que eu fosse a Cochabamba, já que estava ele em meu campo de visão e em minha esfera de audição, como costumam placas me mandarem sair de empregos, músicas de relacionamentos, programas automáticos de internet da família e suas manias e plantas de meus padrões. Em algum momento, vou, não demora, não.

Nada mau, nada mau. Os taxistas observavam. Eu ia ficando sabendo de pombas mortas por sobre cabeças de príncipes e claras de ovos e pedaços de unhas sob seus travesseiros, sanguessugas e sangrias desnecessárias para pessoas que morriam curadas enquanto a moça gritava puta que pariu, puta que pariu, entre divertida e irritada com a perda do coletivo e quase atropelamento pelo carro da cultura, sim, a tv. Outro meio vestido de gari e meio à paisana andava pra lá e pra cá e uma hora se juntou a eles e ao vesgo, um de sobretudo que fumava. Eu não conversava, não, mas houve ali ondas sonoras, movimentos uniformemente variados e todo outro tipo de coisa que não se deve explicar mas entender das físicas clássica, moderna e quântica me contando, logo depois de entrar cega pela luz no banheiro da padaria e retornar para seus olhares e bancos e esse choque, que formávamos uma sociedade secreta.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

grávidas

As três estavam grávidas e nenhuma das outras duas ia ter o filho. Uma delas disse que já tinha abortado no mês passado. A barriga inchada, não teve nada de felicidade, era só angústia o que chamava tudo aquilo, eu contando para elas, os peitos doloridos, elas me ouviam e em sonho, tinham tamanho de criança, mas sei o tamanho exato que têm na vida, são tão maiores e tentavam me dizer pra não ter. Acordo, um toque de música que conheço há tanto tempo que achava que era minha, era meu, tinha certeza, mas as coisas vão se escrevendo a lápis e ficam perdidas. Queria tanto ter ido, queria, queria e queria. Se tivesse sentido mais uma gota de convicção e vontade em sua voz, mas prefiro deixar as sensações todas que vêm de você me contarem do que preciso saber. Aos poucos, vou aprender, aprenderemos a dizer mais e escutar mais, cada um sabe o quê, nessas pequenas idas e vidas.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

aqui em casa

pequeno assim,
meu anjo, e infinito
volume de um alfinete
da largura de um grito

cada vez que vai
morre uma coisa
aqui dentro da casa
não adianta
dizer o que quiser
porque sinto
o que tantas abelhas
vêm fazer no quintal
morre o corpo e a libélula
e fica a asa crédula

uma vez guardei
no caderno de alguém
perdido nem faz mal
tudo aqui dentro
o desenho, a forma,
o voo, a ideia
duas lagriminhas de sal
fora ou no centro

é grande
mole e granito
escorrega e desliza
que nem sabonete
silencia e não tanto
que nem eu sinto
subo e desço
decalça no tapete
e esqueço

agora a escada na sala
a cozinha no quarto
o banheiro e a luz
listrada da janela
do vizinho
tudo sozinho

posso
esvaziar a mala
entrar em trabalho
de parto
achar
coisa que não sei onde pus
tudo culpa dela
arruma nada
deixa lá no cantinho
não apaga a luz

mede assim,
meu anjo infinito
do tamanho de um capacete
da altura do inaudito
a volta,
a mão que atravessa
a parede,
o desdito

quarta-feira, 1 de julho de 2009

estrada

Então eu virei, em algum lugar próximo ao vale, disso ou daquilo, não importa, uma pedra relativamente grande dessas que atrapalham mesmo, logo eu, achando que não tinha visto, que não tinha entendido, mas tinha sim, questão de tempo e foi só hoje à tarde junto com o sol que se punha e eu não conseguia coisa nenhuma além de infecções, inimizades e estar vestida exatamente igual aos outros de luto por dias a fio as coisas, as pessoas vêm morrendo desavisadamente suas mortes passam por mim quase despercebidas enquanto me alimento de não sei exatamente o quê porque não me lembro, mas vai me dizer, repetidas vezes todas elas que eu precisar - as vezes, não as coisas - vai me dizer, não vai me dar nada. Eu não quero mesmo nada, não é nem pouco pra mim. Fato é que pedra virada, assim como página, lá estava eu no passado tentando o melhor que podia, fazendo o que dava de um lado para outro entre vaca, galinha e minhoca e ainda assim não suficiente porque não se pode chegar para alguém assim e pedir o que quer que seja, a não ser que seja muito.

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domingo, 28 de junho de 2009

às traças

aqui não passa trem
nem uma única vez
não passa o tempo
aqui quando ele não vem
não anda e não passa
tempo nem fumaça
fica suspensa
em forma de ésse
entre a cortina e o sofá
se soubesse
e às traças
brindaremos
aos poucos
aos copos errados
aos tropeços
aos livros acabados
aos começos
do em si encerrado

sexta-feira, 26 de junho de 2009

o que morreu ontem

Escrevo mesmo pra todomundo hoje porque não há mais a quem se fazer isso especificamente embora não possamos especificar muito nada nenhum por aqui, pra ser verdade, precisa dizer e eu não digo e não escolho essas especificidades, comecei assim só por começar, só pra começar. Não vá assim por que esqueceu a máquina e ficou me devendo um texto que nunca vai dar como eu mesma devo algumas coisas ainda. As pessoas devem, sempre, só não sabem o quê nem a quem mas sempre existirão seus olhos quase pretos, quase verdes, quase infinitos pra olhar qualquer coisa e ter certeza, pra olhar e saber que não há mais o que ser olhado e pra saber exatamente o que é que deviam e não fizeram, o que deviam e não pagaram, do que desviam e para onde era o norte. Deve ter uma coisa muito dura, muito forte, indestrutível e de uma beleza de medusa aí dentro e eu não vi porque não podia endurecer com ela, cada coisa com a sua natureza, eu não pude virar pedra e tentei, cada um com a sua coisa, não consegui, uma beleza tão forte e densa, grossa e pesada de se chorar dançando no escuro pra quem tiver a coragem que me faltou - não sei se preguiçoso ou se covarde, sempre se pergunta. Sou da tarde, começam os dias ao meio e não me importa esverdear pois não há mais especificidade motivando a luz da manhã, aquela da qual mais precisamos, soube, assim como as plantas. A saber: aquela plantinha nascendo fraca e se arrastando é uma trepadeira e lhe falta casca de ovo. Eu não podia endurecer com ela, mas sempre soube tua presença porque tinha medo e ainda tenho. Há tudo, mas não quero isso. O rádio parou quando se foi, não aguentou, como um meu substituto, dublê ou segurança particular, absorveu todas as moléculas que poderiam ter me feito parar de funcionar e assim como você, desistiu. Também não suportaram Michael e Farrah.

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